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Passava das 3h30 da madrugada quando tocou o telefone de Airton Spies, secretário de Estado da Agricultura.Após o susto inicial, Spies desperta de um sono leve e atende a chamada. Do outro lado da linha, o diretor de uma agroindústria do oeste catarinense relata, em tom de choque, que seis de seus caminhões haviam sido sequestrados e levados para um bloqueio de caminhoneiros na BR-282, na cidade de Pinhalzinho. Assim que desliga, o secretário aciona o comandante-geral da Polícia Militar, coronel Araújo Gomes, que sequer havia dormido naquela noite. Em pouco tempo, uma unidade regional da PM se desloca até o bloqueio e consegue recuperar os veículos, que seriam utilizados para o transporte de suínos vivos.

Nesse momento, Santa Catarina e o Brasil já caminhavam para o nono dia de greve dos caminhoneiros. Ainda levaria mais três dias até que a situação fosse totalmente controlada, mas muito antes disso o governo de Santa Catarina já estava com todas as suas forças para monitorar o movimento e minimizar os impactos sobre a população.


Fotos: Jeferson Baldo/Secom

Comitê de crise

Desde o primeiro dia, equipes de diversas secretarias foram mobilizadas para acompanhar os desdobramentos da greve no Centro Integrado de Gerenciamento de Risco e Desastres (Cigerd), na região continental de Florianópolis. No segundo dia, ocorreu a primeira reunião do governador Eduardo Pinho Moreira com parte do secretariado. A partir daí, as ações foram diárias e incluíram muita negociação com os grevistas. Na avaliação de Moreira, a greve deixou marcas em Santa Catarina, mas estas foram minimizadas graças ao esforço de todas as pastas da administração estadual.

“Nós fomos tolerantes, estabelecemos um diálogo muito forte com os grevistas. Em todos os momentos nós ouvíamos o que eles queriam. Até quando as conquistas deles vieram. Eles tiveram a redução do valor do diesel, a não cobrança dos eixos levantados nos pedágios e a garantia do frete mínimo. Foram conquistas verdadeiras. A partir daí o movimento virou bagunça. Tomou contornos políticos, agressivos. Até quebraram caminhões, morreu um caminhoneiro no norte do país. Com isso, chegamos à conclusão de que aquilo precisava parar”, diz o governador.

No gabinete de crise montado no Cigerd, todo dia às 18h havia uma reunião organizada pelo secretário Rodrigo Moratelli e comandada pelo próprio governador. Com o passar dos dias, juntaram-se ao grupo também autoridades de órgãos federais, como o Exército, a Marinha, a Aeronáutica e a Polícia Rodoviária Federal. O objetivo era fornecer informações sempre atualizadas para a tomada de decisões.

Agricultura

Desde o primeiro momento, uma questão se mostrou essencial para o grupo que gerenciava o gabinete de crise: preservar a biossegurança e a sanidade animal do Estado. O alerta partiu do secretário Airton Spies e imediatamente um grupo foi montado para receber os apelos das agroindústrias que não conseguiam alimentar os seus animais.

“Todo o esforço da Secretaria da Agricultura foi em ações para mitigar os impactos, principalmente da falta de alimentos nas granjas, e para proteger a vida dos animais e evitar os riscos à sanidade e à biossegurança que a inanição poderia causar na nossa pecuária. No gabinete de crise, destacamos um grupo de técnicos que se integrou ao Cigerd. Eles acatavam os pedidos de ajuda de indústrias e produtores para prestar os serviços de escolta, por meio da Polícia Militar, e garantir o fornecimento de ração para os animais”, conta Spies.

Conforme os dias passavam, aumentavam as demandas para garantir o abastecimento desses animais. Em um primeiro momento, a maior parte dos grevistas aquiesceu em deixar passar os caminhões carregados com ração. Após alguns dias, as fábricas já não tinham os insumos para produzir alimento para o rebanho. Com isso, foram necessárias novas negociações para permitir que novos itens fossem autorizados a transitar pelos bloqueios.
Um dos momentos mais tensos, diz Spies, aconteceu quando uma agroindústria informou que precisaria começar a eleger os lotes de animais que deixariam de alimentar. Um total de 250 mil aves estava prestes a morrer de fome.

“Aquilo foi chocante. Seriam animais que nós teríamos de abater sanitariamente lá mesmo na granja. Mas, no fim, nós conseguimos providenciar o alimento e salvamos para que não morressem de fome. O pior foi evitado. Conseguimos passar por essa tragédia sem ter que descartar animais sanitariamente”, lembra Spies.

Protocolos 

Na visão do secretário de Estado da Defesa Civil, Rodrigo Moratelli, algo essencial durante a gestão de uma crise é garantir a sinergia operacional entre os entes públicos, de modo a diminuir os níveis de estresse e assegurar que as decisões tomadas sejam ágeis e eficientes. Para isso, é necessário seguir os protocolos já previamente disponíveis.

“Nessa situação específica, usamos seis níveis de protocolo. A decisão é tomada em cima de padrões internacionais, a fim de sempre melhorar a sinergia para que nós fôssemos eficientes. Isso, de fato, aconteceu”, explica Moratelli.

Ao longo dos onze dias de paralisação, a ação do governo catarinense passou por cinco fases: monitoramento do movimento, manutenção dos serviços essenciais, identificação dos líderes do movimento, com mesas de negociação, o início da desmobilização, com o apoio das forças federais, e o restabelecimento do cotidiano.

Mesmo com o trabalho intenso ao longo de todos os onze dias, Moratelli explica que a experiência do quadro de funcionários da Defesa Civil com eventos críticos garantiu que a estrutura governamental terminasse a greve dos caminhoneiros até mesmo com certa sobra de recursos. E o cansaço?
“Sempre falo que nós descansamos no evento. A Defesa Civil trabalha mais fora do que no evento propriamente dito. É uma característica. Passamos muito mais tempo preparando as nossas estruturas do que exaatamente atuando. Na crise, seguimos os protocolos. Você não pensa, mas executa”, explica.


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Segurança

Ao longo dos onze dias de greve, a segurança pública não foi deixada de lado. É o que garante o secretário Alceu de Oliveira Pinto Junior. As polícias conseguiram manter as suas operações rotineiras e também as já programadas, além de oferecer suporte para os outros órgãos da administração estadual em questões relacionadas ao movimento dos caminhoneiros.

“O trabalho de prevenção da criminalidade e da violência foi mantido. Com isso, nós conseguimos assegurar também os resultados (com a curva decrescente da criminalidade), desdobrando meios e tratando tudo como um evento emergencial”, explica Oliveira Junior.

O comandante-geral da Polícia Militar, coronel Araújo Gomes, conta que a corporação tem uma capacidade já institucionalizada de gerir crises. Nessas ocasiões, as atividades administrativas são reduzidas ao mínimo necessário e todos os esforços são canalizados para suprir um atendimento extraordinário à sociedade. Um estado-maior foi formado especificamente para essa crise.

“Mergulhamos nessa missão e só tiramos a cabeça para fora d´água quando foi dado o sinal verde pelo governador. Os nossos policiais não dormiram normalmente, não se alimentaram como estão acostumados e fizeram jornadas muito maiores que as normais. Mas eu posso dizer que a nossa instituição sai desse evento melhor, fortalecida, sabendo que teve um papel de protagonista. Conseguimos envolver desde o soldado lá na ponta até os comandantes”, diz Araújo Gomes.

Por parte da Polícia Civil, também houve um desdobramento para manter as atividades essenciais e, ao mesmo tempo, auxiliar com as demandas surgidas por conta da greve. Os helicópteros da corporação, em especial, tiveram papel fundamental no transporte de insumos para hospitais e outras unidades de saúde, por exemplo. Na opinião do delegado-geral Marcos Ghizoni, importantes lições serão levadas pela corporação.

“Foi um teste muito interessante. Pudemos ver a grande capacidade do policial se diversificar. Houve agentes que atuam diretamente contra o crime levando medicamentos, sorrindo, e transportando crianças”, diz Ghizoni.

Cigerd

Inaugurado apenas três dias antes do início da greve dos caminhoneiros, o Cigerd teve um papel fundamental na junção das forças estaduais que atuaram para debelar a crise. A estrutura, localizada no bairro Capoeiras, na Capital, é considerada uma referência para o país, e até internacional, concentrando todas as setoriais do governo. Na avaliação do governador Eduardo Pinho Moreira, o Cigerd permitiu uma leitura estadual em tempo real dos acontecimentos. Com isso, o controle da situação nunca foi perdido.

“Nós sabíamos o que estava acontecendo em todos os cantos de Santa Catarina. Todos os setores do governo — e também da sociedade — usaram isso para se comunicar. Nós tínhamos o controle absoluto da situação através do Cigerd. Essa estrutura é uma conquista que serviu bastante no seu primeiro desafio e foi aprovada com louvor”, diz Moreira.

Quem também rasgou elogios ao Cigerd foi o delegado-geral Marcos Ghizoni. Segundo o delegado, o centro congrega ferramentas tecnológicas que permitem a comunicação rápida com todos os cantos do Estado. Além da central, existem outros 20 Cigerds regionais, todos conectados por meio de videoconferências.
“Estávamos sempre atuando e tendo feedback. Sem essa troca, possivelmente não teríamos o sucesso que tivemos”, opina Ghizoni.

Acompanhamento

Com a greve dos caminhoneiros ficando para trás, o Estado continua a monitorar a situação e foca em ações para garantir a recuperação, principalmente na parte econômica. Um desses trabalhos ocorreu com o lançamento do movimento “Compre de Santa Catarina”, que visa despertar o sentimento de valorização dos produtos catarinenses. Com a união de forças, o governador acredita que será possível continuar uma trajetória de crescimento, que melhore as condições de vida dos moradores do Estado.

“As coisas voltaram ao normal, mas ficou uma lição que precisamos sempre olhar com carinho e que as greves não podem ser tratadas à distância sem dar a devida importância. Isso vai trazer consequências para o Brasil nos próximos meses. Mas nós, brasileiros e catarinenses, nos recuperaremos”, finaliza Moreira.

 

Leonardo Gorges - Secom

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